Ser ou Nada

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Há á momentos que revisamos uma série de coisas e pensamos sobremaneira sobre nossos porquês.

Porque uma escolha e não outra, porque uma dor e não outra, porque um lugar e não outro, porque um trabalho e não outro, porque uma pessoa e não outra. O “se fosse de outro modo” não existe como uma possibilidade relativa às escolhas passadas. Revisitar uma serie de coisas tem mais a ver com uma tentativa de entender nossas motivações e condicionamentos, para tornar o presente mais consciente e menos dominado por comportamentos que nos fazem mal, mas sobre os quais temos pouco controle ou decisão.

Contatar nossas sombras, contatar comportamentos inadequados que precisamos superar, é algo que exige coragem.

Com certeza, precisamos riscar do mapa de nossas vidas coisas que nos fazem mal. Às vezes toleramos demais - essa é bem a palavra: tolerar - coisas que nos fazem sentir muita raiva, por querer contemporizar, considerar, valorizar outras, minimizando os efeitos que as coisas que toleramos têm sobre nossas emoções. Lá pelas tantas, nos damos  conta que somadas às tolerâncias, toleremos tempo demais, coisas demais, em nome de caminhar outra milha, dar outra chance, perdoar e compreender, relevar, buscar entender as limitações próprias da natureza humana. Tudo que toleramos demais nos envenena.

Em algum momento a gente tem que “cai na real”, deixar a “ficha cair”, categoricamente, e descobrir que trabalho tem que ser realizador porque não adianta ter dinheiro para pagar as contas, se somadas tantas frustrações, o saldo acaba sendo negativo. A gente tem que se livrar das contas, para poder se livrar do trabalho e resolver as frustrações transitando espaços mais realizadores. A gente precisa “cair na real” que amor faz bem e não mal. Portanto, não dá para insistir em amar quem  machuca, quem fere, quem agride, quem engana, quem usa, quem manipula e tantas outras coisas próprias de patologias que precisam de tratamento e não relacionamento. A gente se dá conta que por algumas coisas pagamos preço alto demais, portanto, não valem à pena. Que insistir em algumas coisas trás mais dano do que vantagens. Que quanto mais rápido a gente diz alguns “nãos”, mas rápido a gente diz sim para a felicidade em uma série de aspectos. Que tem gente que merece ser mandada pra bem longe, preferencialmente para um lugar que purgue suas maldades e malícia - A natureza humana consegue ser mesmo cruel, mesmo se travestida de justificativas e razões. Que há pessoas que agem mal mas, despropositadamente e, então,  eis que conscientes de suas falhas, reconhecem e corrigem suas ações. Mas, há pessoas que sabem o que não devem fazer, mas vão fazer mesmo conscientes do erro e vão se repetir e justificar porque é assim que funcionam e a gente tem que saber dizer basta,  afastando-as de nossa convivência.

A questão é que se tem que aprender a dizer BASTA e ter coragem de romper com uma série de coisas em nossas vidas que na verdade são muito aprisionadoras, principalmente quando a gente tem muitos “devo” escritos na alma. A gente “deve” demais, “deve” tanto, que acaba vivendo de menos, porque tanto “dever” não permite “ser”.

 
Vitórias são coisas trabalhosas de se constituir. Implicam em grande empenho e dedicação. Vitórias implicam em persistência. Ações diárias consistentes e bem fundamentadas. Implicam em foco,  determinação e em postura firme, embora suficientemente flexível para ser capaz de suportar embates e necessidade de revisão de rumos e metas. Vitórias implicam na capacidade de administrar conflitos exteriores, mas, principalmente, conflitos da própria alma, num processo constante de reconstrução pessoal.

Somos muito pródigos em julgar os comportamentos alheios, mas temos muita dificuldade de avaliar nossa própria conduta e motivações. Do desconhecimento do que somos, e do que nos motiva e impulsiona, nasce às rachaduras que abalam as estruturas de nossas construções. Não é a outros que devemos temer, não são os outros que percebemos como aqueles que nos controlam, checam e cobram que ameaçam nosso destino. O que é capaz de nos ajudar a constituir vitórias ou derrotas é o que habita nossa própria alma. Não são outras as pessoas para quem mentimos, a quem omitimos ou enganamos, não são outras as pessoas que temos tanta necessidade de agradar ou seduzir. É o outro que nos habita que nos tenciona a ponto de vivermos muitas vidas em uma, num palco de perplexidades.  É com esse outro de nós que precisamos nos entender, pois é esse a quem mais ferimos e enganamos.

Mais do que discursos e conhecimentos aleatórios, o que precisamos é mergulhar no lago desconhecido de nosso próprio ser, pois quanto mais pudermos, nos permitir contatar o que somos e escolher o que nos faz bem e não mal,  mais leais seremos a nossa própria existência. As vitórias virão e serão a expressão mais autentica do modo como escolhemos construir nosso destino.

Pensar em tudo isso me recorda a letra da música de composição do Lô Borges:

 Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo
E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada
Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada.

O importante, importante mesmo,  é Ser, ou nada.

Christina Rocha

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