Medo

 

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“Sei um segredo Você tem medo...”.
(Milton Nascimento)

Às vezes nos pegamos cantarolando alguma canção. É bom prestar atenção. Hoje cantava repetidamente isso: “sei um segredo, você tem medo”. É verdade, eu tenho. Muitos por sinal. Isso me fez recordar uma história que ouvi certa vez e marcou minha memória como referência para o enfrentamento de meus receios.

Um homem após procurar um trabalho que lhe permitisse sustentar sua família, encontrou uma oportunidade de trabalhar num circo como segurança noturno. Uma de suas tarefas era cuidar de um tigre. O seu posto ficava bem em frente à jaula e ele precisava alimentar o animal.  Ocorre que todas as noites o tigre rugia alto e seu coração acelerava. O forte animal batia nas grades da jaula, rugia e fazia barulho. O coração do homem disparava, suas mãos suavam, seu estômago doía e ele pensava como suportaria aquela situação. Pensava em sua família, seus filhos, e pensava como iria enfrentar o medo imenso, quase pânico, que dominava seu coração. No entanto, certa noite seu olhar medroso cruzou com o olhar do tigre e neste momento o animal se aquietou. Ao tirar o olhar dos olhos do animal esse voltou a rugir. Ele encarou novamente os olhos do tigre e o animal se acalmou. Ele descobriu que se encarasse os olhos do tigre, de frente, o animal se aquietava, se deitava e adormecia. Foi assim que ele conseguiu um jeito de permanecer em seu trabalho: Olhando seu medo de frente.

É possível enfrentar os nossos tigres interiores.  Nominá-los,  perceber o ruído que fazem em nossas almas e, então, olhá-los de frente. Recordo-me de um pensamento de Willian Shakespeare: “Nossas dúvidas são traiçoeiras e nos fazem perder o bem que poderíamos ganhar, se não fosse o medo de tentar”. O medo produz imobilização. A vida é risco. Se imobilizados não conseguimos viver.  Fechamos-nos no que imaginamos ser o seguro espaço do conhecido, mesmo quando algumas insatisfações nos inquietam. Repetimo-nos, nos acomodamos, porque o desconhecido nos assusta em demasiado. Seja em questões afetivas, profissionais ou relacionais, ficamos a nos repetir, sem ousar rompimentos e vislumbrar alternativas.  Lá pelas tantas nos damos conta que habitamos espaços fechados demais, temos as chaves, mas nos trancamos na jaula de uma existência pouco realizadora.

Há medos pouco objetivos. Medo da perda, da solidão, da morte, da dor, da falta de competência, do envelhecimento, medo das possibilidades e das impossibilidades que percebemos em nossa vida. Medos às vezes difusos, cuja face não conseguimos definir com precisão, até porque o receio de encará-los nos impede de olhá-los de frente.

Seja qual for o medo que nos coloque em estado de vigia, que nos inquiete a alma e mobilize o coração, só é possível caminhar apesar dele. Quem não os tem? Não queremos sentir dor, nos decepcionar, nos entristecer. Nós todos temos nossos instintos de defesa e mecanismos de proteção.

Lembro-me do belo poema de Fernando Pessoa:

Eu quero colo
Um berço
Um braço quente em torno do meu pescoço
Uma voz que cante baixo
Que pareça querer me fazer chorar
Eu quero um calor no inverno
Um extravio morno da minha consciência
E depois em sumo
Um sonho calmo
Um espaço enorme
Como a Lua rodando entre as estrelas.

É tão bom nos sentirmos amparados, protegidos, aconchegados. A sensação de desamparo frente aos temporais da existência é algo assustador. Tememos. Mas, é apesar de nossos medos que teremos de viver e gestar a vida do próximo tempo. Mais saudável será se pudermos admiti-los como parte dos desafios do percurso. Faz parte temer.

Como diz o poeta, “que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio”. É possível olhar e enfrentar - permitir-se contatar os anseios do coração.

Talvez, para algumas almas seja possível a acomodação, seja possível buscar consolos fáceis, ou mesmo fechar os olhos e fazer de conta que nada acontece. Ser blasé (em geral, quando o são, nem se dão conta). Mas, para algumas outras, isso é impossível.  

A minha alma tem
Um corpo moreno
Nem sempre sereno
Nem sempre explosão
Feliz esta alma
Que vive comigo
Que vai onde eu sigo
O meu coração

(Sueli Costa e Abel Silva)

“Sei o segredo... eu tenho medo” e apesar dele preciso, é uma necessidade vital, continuar a caminhar.

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